Começar um blog no meio de dezembro é meio caótico, mas uma das coisas bacanas é ter pretextos para criar listas. E com uma década terminando, melhor ainda.
Lembrando que reflete minha opinião pessoal, e está limitada aos filmes que eu assisti. A outra opção seria apelar aos resultados dos festivais ou à quantidade de espectadores nas salas. Acredite, seria mais confuso. Em 2007, enquanto o Festival de Brasília premiava o (insira seu adjetivo pejorativo) Cleópatra, o público abençoava o Capitão Nascimento.
Para manter uma certa ordem, excluí documentários, deixando de lado coisas boas, como Estamira. Por precaução, criei também uma cota de apenas um filme com temática de tráfico e favela. E os filmes com o Selton Melo ganhariam uma lista própria, mas acabaram se misturando com os outros (por enquanto).
Finalmente, cheguei a isso:
10. O Homem que Copiava (2003)

André é um operador de fotocopiadora, e aspirante a ilustrador, que quer conquistar sua vizinha, Silvia. Seu contato com o mundo acontece através de seu binóculo e de trechos das páginas que as pessoas levam para copiar. Uma obra pop nacional, com direção de arte e edição muito afiadas, Luana Piovani em roupas curtas, sotaque porto-alegrense, animações e explosões. De Jorge Furtado (Ilha das Flores), é parte de uma “quase” trilogia que inclui Houve Uma Vez Dois Verões e Meu Tio Matou Um Cara.
9. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006)

Mauro é deixado com seu avô paterno judeu, enquanto seus pais fogem da ditadura militar. Apesar de se perder um pouco no ritmo, é um excelente drama dirigido por Cao Hamburger, criador do Castelo Rá-Tim-Bum. Os atores infantis não tinham falas pra decorar, e a naturalidade deles é um dos pontos fortes do filme.
8. Nina (2004)

Nina tenta sobreviver em São Paulo enquanto é maltratada por Dona Eulália, dona do apartamento onde alugou um quarto. Confesso que eu esperava um pouco mais depois de ver o trailer, mas o primeiro filme do Heitor Dhalia (O Cheiro do Ralo, À Deriva) merece entrar na lista pela direção de arte e pela atuação fantástica da Myriam Muniz, que morreu logo após as filmagens.
7. Copacabana (2001)

Alberto completa 90 anos e relembra sua vida em Copacabana. Entre o baralho dos velhinhos, e a vida noturna do Rio de Janeiro, Carla Camurati criou um retrato completo do bairro. Rogéria cantando com voz grossa deixaria qualquer Helena de Maneco assustada.
6. O Invasor (2001)

Estevão, Ivan e Giba são sócios numa construtora. Depois de uma discussão, os dois amigos contratam Anísio para assassinar Estevão e deixar o caminho livre para seus planos na empresa. Paulo Miklos mandou no filme, mesmo quando Mariana Ximenes estava em cena. Podia entrar num top 10 de melhores atuações do cinema brasileiro.
5. Durval Discos (2002)

Durval mora com sua mãe, é dono de uma loja de discos parada no tempo, que se nega a vender CDs. A harmonia da casa muda quando uma criança passa a fazer parte do seu dia-a-dia. A melhor surpresa da década, o filme chama a atenção nos créditos iniciais: um grande plano-sequência através de uma rua paulistana. A comédia leve que dá o tom da primeira metade é substituída por um suspense SURREAL na metade final, aka. o Lado B do filme.
4. Abril Despedaçado (2001)

Em 1910, no sertão brasileiro, vive um jovem de vinte anos que passa a ser estimulado pelo pai para vingar a morte de seu irmão mais velho, assassinado por uma família rival, que ele só poderá matar, quando a blusa que seu irmão mais velho estava quando morreu amarelar. Lançou oficialmente a carreira internacional do Rodrigo Santoro em Hollywood. Walter Salles criou um nordeste medieval, e filmou nele uma história de clássica de vingança.
3. Cidade de Deus (2002)

Na década de 1970, os antigos amigos assumem o comando do tráfico de drogas na comunidade, que agora está ainda mais empobrecida e violenta. Os dois estabelecem prioridades bastante diferentes em suas vidas. O conflito entre o bando de Zé Pequeno contra o único foco de resistência ao seu controle, a área dominada pelo bando de Sandro “Cenoura”. Cidade de Deus extrapolou os limites do cinema nacional, logo no começo da década. Foi a primeira vez em muitos anos que as pessoas festejavam um filme brasileiro dessa forma. Além da temática popular, a direção, a edição, a fotografia, a direção de arte deixaram todo mundo de boca aberta, e ecoaram a produção para o resto do mundo, entrando na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos da revista Time.
2. Lavoura Arcaica (2001)

Lavoura Arcaica narra em primeira pessoa a história de André, que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Um filme denso e extremamente dramático, com uma fotografia impecável. Simone Spoladore, que não tem uma fala, está linda nas cenas de dança. É um daqueles com uma etiqueta “TEM QUE ASSISTIR!”
1. A Máquina (2006)

Antônio mora em uma cidade chamada Nordestina, que é muito pequena e nem existe no mapa. Os habitantes de Nordestina aos poucos vão, um a um, deixando a cidade em busca do “mundo”.Em determinado momento, Karina, por quem Antônio é completamente apaixonado, decide ir para o mundo em busca do seu sonho de ser atriz. Em uma tentativa de impedí-la, Antônio promete trazer o mundo à sua amada. Você leu a sinopse, não parece nada demais. E em 2006, filmes com temática nordestina já não eram nenhuma novidade, mas a história de “A Máquina” é romance de fantasia surpreendente, com toques de ficção científica. É o realismo fantástico de João Falcão que, com um encerramento surreal e poético, ganhou seu posto de melhor filme da década.