
Quando 2010 começou, a discussão sobre o cinema nacional estava focada apenas na controversa cinebiografia do, então presidente, Lula. Apesar das expectativas, ninguém poderia realmente imaginar o que se passaria na sequência. Foi o ano da consagração das cinebiografias, do contínuo fortalecimento do documentário, da chegada dos temas espíritas às telas e do blockbuster brasileiro: “Tropa de Elite 2″.
A superestimativa de uma cinebiografia
“Lula, o Filho do Brasil” estreou no primeiro dia do ano, debaixo de expectativa, apreensão e muito falatório da imprensa. As manchetes falavam do custo da produção, do possível uso da influência do presidente para conseguir apoiadores e do valor político de um filme deste tipo em ano eleitoral. A Veja forçou a barra e acusou de ser “parte de um projeto de endeusamento do presidente”, e continua ainda hoje batendo em cachorro morto em seus blogs. Nem o acidente grave sofrido pelo diretor Fábio Barreto, cerca de 10 dias antes da estréia, aliviou as críticas.

O sucesso do filme foi mediano, assim como seu enredo. Na primeira quinzena foram cerca de 500 mil pessoas, e o total ficou longe dos 12 milhões de espectadores almejados pelo diretor. Apesar de se basear numa história rica de acontecimentos, uma autêntica jornada do herói, “Lula” não empolgou, acabou sendo óbvio demais. O ponto alto, realmente alto, foi a performance de Gloria Pires como dona Lindú. A mulher foi excepcional!
As acusações de mostrar uma história maquiada, amenizando a figura de Lula, foram até coerentes, e podem ter alguma relevância política, mas quando olhamos pelo prisma artístico elas perdem seu valor. Uma obra de ficção ainda é uma obra de ficção, mesmo que apoiada em zilhões de fatos reais. No fim das contas o trabalho da imprensa teve um efeito reverso, pelo menos em mim, gerando uma expectativa maior. Fui assistir no cinema um filme que provavelmente pegaria em dvd ou mesmo na tv.
Os espíritas vão ao cinema
Finalmente os produtores perceberam a oportunidade que tinham ao produzirem adaptações de livros espíritas para as telas. O país tem uma das maiores populações seguidoras da doutrina e cria um best-seller atrás do outro. Além disso, os centros espíritas são canais valiosos para divulgação das obras. Eu vi cartazes colados em painéis informativos e pessoas recomendando os filmes nos corredores. Uma rede social, quem diria?
“Chico Xavier” e “Nosso Lar” foram os grandes representantes desta nova onda, ficando respectivamente em segundo e terceiro lugar na bilheteria de filmes brasileiros em 2010. O primeiro, um filme extremamente emocional dirigido por Daniel Filho, cheio de atuações memoráveis. Há que se descontar a característica do diretor em pesar a mão um pouco e tornar o filme meio televisivo. O segundo, uma superprodução cheia de efeitos especiais, com apelo grande apelo popular, apesar da direção inconsistente.

Nesse momento não quero discutir a fundo o aspecto artístico dos dois. Acho que tiveram muito mais pontos positivos do que negativos, mas não podemos negar o valor comercial das duas obras. O Brasil precisa de mais “filmes de entretenimento”, que atraem o grande público e geram dinheiro para que os “filmes de arte” sejam produzidos com mais tranquilidade.
A era de ouro dos documentários
O cinema de documentário vem numa crescente animadora, que nos deu coisas como “Simonal – Ninguém sabe o duro que dei” e “Alô alô Terezinha”. Os destaques deste ano foram “Uma Noite em 67″ e “Terra Deu, Terra Come”, vencedor do “É Tudo Verdade”. Mas muitas coisas boas surgiram: “Dzi Croquettes”, “Cildo”, “Elza”, “José e Pilar”, “Rita Cadillac – A Lady do Povo” e os docs de futebol impulsionados pelo sucesso de “Todo Poderoso, o filme: 100 anos de Timão”.

O cinema jovem
O público adolescente, carente de produções específicas, começou a ver esse panorama mudar um pouco. Dois filmes relevantes deste ano foram “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do estreante Esmir Filho, e “As Melhores Coisas do Mundo”, de Laís Bodanzky. Os dois cheios de contrastes: Laís aponta sua câmera para a classe média, os dramas escolares, o sexo e a diversão. Esmir é mais intimista, fala de Bob Dylan, da tristeza adolescente, da falta de perspectivas. Em comum a internet, a tecnologia e as novas formas de comunicação que mudaram completamente essa geração.

O arrasa-quarteirões do Brasil
A unanimidade do ano foi “Tropa de Elite 2″. Todo mundo viu, todo mundo gostou e todo mundo se surpreendeu. José Padilha ampliou o conceito do filme, elevou o nível e bateu na cara de geral: polícia, bandidos, políticos, direitos humanos, classe média. Era de sair do cinema com cara de bunda, depois de ter ido lá esperando por um banho de sangue. “O público entendeu que o Capitão Nascimento era um herói? Então vou fazer ele virar um herói.”, deve ter pensado o diretor ao começar a planejar a continuação.

Foi genial, e deu certo! Maior bilheteria da história do cinema brasileiro, maior número de espectadores, a quinta maior abertura do cinema brasileiro.
O diretor, além de participar de toda a produção, arquitetou a estratégia de distribuição do filme, independente de grandes distribuidoras, o que o fez arrecadar cerca de 102 milhões de reais. É um dos primeiros filmes auto-suficientes, depois da Retomada. Não usou grana de incentivo do governo e ainda gerou lucros para que a produtora possa realizar novas obras.
Essa atitude louvável e corajosa mostra como a produção de cinema pode se levantar e andar com as próprias pernas, e aumenta a responsabilidade dos realizadores para superar as expectativas novamente, fazendo de 2011 mais um ano de sucesso para o cinema brasileiro.